17 maio 2006

SIMPLESMENTE
Vicente Siqueira

Uma calçada qualquer. Um dia qualquer. Quando se fechava o abril. Um frio abril, como um junho qualquer, desses junhos frios, se frio ele for. Passos rápidos e automatizados. Um caminhar sem nexo, em qualquer direção. Por aí. Assim meio distraído.
Desapercebendo as vitrinas, esquecendo as pessoas, esses vagos transeuntes descuidados. Não ouvindo os ruídos. Simplesmente por aí. Simplesmente.
Um dia vago, um dia frio. Sem sol, sem chuva, sem promessas, sem nada. Dia de irônicos silêncios, de melancólica atmosfera. Uma cabeça insatisfeita comandando o arredio coração, sem vida, sem emoção, instalado num peito vazio, e que traz em si as verdades indiscretas, de obscuras origens.
Um toque suave no ombro, uma voz murmurada, repentina, sôfrega, espremida. Um chamamento. Um encontro. Reencontro. Ali em meio aos passantes, em meio ao dia, quase ao meio dia. Velozes espetadas do tempo, da saudade, que não se esconde, que não se comenta.
Um rosto, uma feição, um jeito, um sorriso. Um beijo (ou dois, ou três) no rosto, com jeito meio-sem-jeito. Ali, numa calçada, um dia. Palavras soltas, descuidadas, talvez de desculpas, talvez de lembranças, talvez de cobranças, mas sem compromissos, sem razão, sem dever. Alguém ali parado, parados, desconcertados.
Uma lembrança, uma promessa. A alegria contida. Como num filme em preto e branco. Bem ali, a poucos passos do cinema; como se o acaso organizasse os encontros pelo mundo: pelos bares, pelos parques, pelas montanhas, pelas praias, pelas calçadas... qualquer dia. Os descuidos e as esperanças foram revistos. Algumas remotas insatisfações foram arremessadas ao ar, como folhas ao vento travesso.
Um turbilhão interior. Uma vontade de falar, desafogar, desabafar: falar de gente, de coisas, de chuvas, de música; desafogar as mágoas, as ilusões, o peito vazio, as visões; desabafar as falsas verdades, os medos monótonos, as idéias, os planos.
Um pequeno grande ser voltou a tomar as suas verdadeiras proporções. Mãos dadas, como nos tempos que não houve. Um silêncio incontaminado, numa miragem inacessível. Frases rápidas, ao acaso. Tentando esconder o que os olhos não negam. Frases curtas, mal proferidas. Olhares angustiados. O esforço para se guardar. Rostos herméticos em suas dúvidas assumidas.
Um beijo (no rosto), de despedida. Uma presença se afastando. Tornando-se ausência. De encontro com o passado. A saudade a espreitar pelas frestas. Duas vidas se distanciando pela vida. Que vida?
Uma desesperança, um desencontro, uma angústia. O desencadear de novas velhas emoções.
Uma vontade de gritar, de impedir, de resistir, de quebrar o ferido orgulho, de não ser o avesso do avesso. Mas em vão.
Uma cabeça baixa, sem esperança, sem nada. Por uma calçada. Um dia frio. Simplesmente um dia.
Simplesmente.