ANJO CAÍDO
Karla Mourão
Do palhaço tentei roubar a alma.
Congelar o temerário gestoque pede uma trégua
na tarefa de ser homem.
Do palhaço quis a inspiraçãodo riso mágico da imperfeição.
Deste ofício de homenagem ao ridículo,
de ensaio no erro,exercício do tropeço,quis conhecer a rotina.
Visitei palco e oficinadeste palhaço que insistena exaltação do feio,
na inquietação do débil,sujo, sem futuro.
Do clown quis aprender a artede aceitar a pior parte.
Negação de reis e rainhas,ao bufão restam migalhasdos bolos,das mulheres,das medalhas.
Resta forca ou calabouço.
Crime lesa-sociedade :esta leviandadede revelar a face dos cavaleiros,
honrados e esgotadospor uma moral patética.
Poética,a moral dos palhaços.
Sem princípios ou finalidades.
Cabeças sacrificadas em nomeda cômica verdade :
Todos nós bufões enrustidos,sufocados pelo desejode ser Deus.
Anjo caído,o palhaço não aspiraà imortalidade.
Vive na dualidade :mais erros que acertos,
mais feios que bonitos,mais a alegria do risco,
que a tristeza da conquista.
Tentei aprender o chiste que permite uma trégua
na tarefa de ser forte.
Mil e duas noites,andei a contar-me estóriasde anti-heróis.
Perdi oportunidades, mas ganhei a alforriadas coisas em desuso.
Jogada no encantodas impossibilidades.
E ao sono pós-melodiasacrescentei novos terrores :
Medo de ser perfumada,bonitinha e ordinária.
O jeito e a prosa da cortepara ser aceita,direita...
Quiçá perfeita.
Para quem?
Pára-quedas.

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