21 abril 2006

DOIDO MISTÉRIO
Vicente Siqueira

Doido mistério é o perfume seu
Toca nu no fundo íntimo quando aspirado.
Belíssimo é o modo de se abrir em mulher.
E na boca tem sabor de pétalas.
Levezas que não se podem dizer
São escancaradas por você.
Tem um sadio orgulho da agressividade
Na alegria de dar-se.
Estranha magia se percebe quando você chega
E quando chega é pra ficar.
Quero esse doido mistério

Que é o perfume do janeiro,
quando se abre o verão.
Quero o equilíbrio perigoso no visgo
que me prendeu a esse fevereiro carnavalesco.
Quero a cor do infinito espacial
dos seus limites marciais onde me perco.
Quero lonjuras para reencontrar o seu perto,
tão aqui e agora.
Quero o tempo do estio para colher
os segundos em você.
Quero aspirar o fundo íntimo
da sua corola que se abriu.
Quero a flor de maio, a quaresmeira,
em flor fazendo outono.
Quero o abril se abrindo
Em promessas de desabrochar.
Quero o agosto trazendo de chofre
O gosto do encanto
De bem com o sentimento que vem do dia que
Desabrocha com a beleza que urge
Quero a esperança de juntar o junho com setembro
A confundir estações.
Florindo o inverno pra quando
a primavera chegar.
Quero que da minha janela, aberta em julho de frio
Divise girassóis explodindo de rir
Quero outro outubro, não rude, não rubro,
Mas quente, e brilhante,
Repleto de explendidez
Quero o novembro de novo procurando o dezembro
Para se acasalar de vez.
E fazer surgir um outro tempo.
E que daí, regresse, célere e já,
Mais um ja-nei-ro.
Pra que haja reveillon o ano inteiro.
Com fogos explodindo
Chuvas de prata caindo
Gente muita assistindo
Nada de choro
De lamentação
De lágrima,
Mas alegria, vida,
esperança, emoção.
Quero você tão anual, refazendo-se diariamente
Todas as semanas, instigando os meses.
Voltando sempre, a nos eternizar.