17 junho 2006

ÁGUA VIVA

Clarice Lispector.

É com uma alegria tão profunda. É com tal aleluia. Aleluia, grito eu. Aleluia, que se funde ao mais escuro uivo humano da dor da separação. Mas é grito de felicidade. Porque ninguém me prende mais. Continuo com capacidade de raciocínio - já estudei matemática, que é a loucura do raciocínio - mas agora quero o plasma - quero me alimentar diretamente da placenta. Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar, pois o próximo instante é o desconhecido. O próximo instante é feito por mim? Ou se faz sozinho? Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de toureiro na arena.Nova era essa minha, e ela me anuncia para já. Tenho coragem? Por enquanto estou tendo: porque venho do sofrido longe. Venho do longe - de uma pesada ancestralidade. Eu que venho da dor de viver. E não a quero mais. Quero a vibração do alegre. Quero a isenção de Mozart. Mas quero, também, a inconseqüência. Liberdade? É o meu último refúgio. Forcei-me à liberdade e agüento-a não como um dom, mas com heroísmo. Sou heroicamente livre. E quero o fluxo.Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.Agora é um instante.Já é outro.E Outro.Meu esforço: trazer agora o futuro para já. Movo-me dentro de meus instintos fundos que se cumprem às cegas.Sinto então que estou nas proximidades de fontes, lagoas e cachoeiras, todas de águas abundantes. E eu livre.Sou um coração batendo no mundo.Você que me ouve que me ajude a nascer.Espere: está ficando escuro. Mais... Mais escuro.O instante é de um escuro total... Continua.Espere: começo a vislumbrar uma forma luminescente. Barriga leitosa com umbigo? Espere - pois sairei desta escuridão onde tenho medo, escuridão e êxtase.Sou o coração da treva.Agora as trevas vão se dissipando.Pouco a pouco.Nasci. Pausa.Maravilhoso escândalo.Nasci.