22 dezembro 2005

CANÇÃO - Cecília Meireles


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar


Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.


O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...


Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.


Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

08 dezembro 2005

AGORA EU SOU UMA ESTRELA
Fernando Faro
(Por Elis Regina)

Agora, o braço não é mais o braço erguido
num grito de gol
Agora, o braço é uma linha, um traço,
um rastro espelhado e brilhante
E todas as figuras são assim:
desenhos de luz, agrupamentos de pontos,
de partículas, um quadro de impulsos,
um processamento de sinais
E assim dizem, recontam a vida...

Agora retiram de mim a cobertura de carne
Escorrem todo o sangue
Afinam os ossos em fios luminosos; e aí estou:
Pelo salão, pelas casas, pelas cidades
Parecida comigo
Um rascunho
Uma forma nebulosa, feita de luz e sombra
Como uma estrela
Agora, eu sou uma estrela.

O ÚLTIMO POEMA - Manoel Bandeira

O ÚLTIMO POEMA
Manoel Bandeira

Assim eu quereria o meu último poema Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais limpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação

06 dezembro 2005

CAMINHANTES - Antoine de Saint-Exupéry

Caminhantes
(Antoine de Saint-Exupéry)

Cada um que passa em nossa vida, Passa sozinho... Porque cada pessoa é única para nós, E nenhuma substitui a outra.
Cada um que passa em nossa vida, Passa sozinho, Mas não vai só...
Cada um que passa em nossa vida, Leva um pouco de nós mesmos, E nos deixa um pouco de si mesmo...
Há os que levam muito, Mas não há os que não levam nada...
Esta é a mais bela realidade
A prova tremenda da importância de cada um, é que ninguem se aproxima do outro por acaso...

Antoine de Saint-Exupéry é o escritor de "O Pequeno Príncipe".

05 dezembro 2005

GESUBAMBINO - Dalla e Pallotino

GESUBAMBINO
Dalla e Pallotino

Ele vinha sem muita conversa
Sem muito explicar
Eu só sei que falava
E cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço
E dourado no dente
E minha mãe se entregou
A esse homem perdidamente
Ele assim como veio
Partiu, não se sabe p'ra onde
E deixou minha mãe
Com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada
Na pedra do porto
Com seu único e velho vestido
Cada dia mais curto
Quando enfim eu nasci
Minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim
Uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos
A pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré
Minha mãe não tardou alertar
Toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais
Que uma simples criança
E não sei se bem por ironia
Ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome
Do Nosso Senhor
Minha história, esse nome
Que ainda hoje carrego comigo
Quando vou bar em bar
Viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes
Meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome
De Menino Jesus...
(Versão de Chico Buarque e Vinicius de Moraes )

04 dezembro 2005

HINO NACIONAL BRASILEIRO - Francisco Manuel da Silva e Joaquim Osório Duque Estrada

HINO NACIONAL
Musica: Francisco Manuel da Silva
Letra: Joaquim Osório Duque Estrada



Ouviram do Ipiranga às margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.

Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio ó liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó Pátria amada
Idolatrada
Salve! Salve!

Brasil de um sonho intenso, um raio vívido,
De amor e de esperança à terra desce
Se em teu formoso céu risonho e límpido
A imagem do Cruzeiro resplandece

Gigante pela própria natureza
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza,

Terra adorada!
Entre outras mil
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada
Brasil!


Deitado eternamente em berço esplêndido,
ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!

Do que a terra mais garrida
Teus risonhos lindos campos tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida
Nossa vida no teu seio mais amores

Ó Pátria amada
Idolatrada
Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro dessa flâmula
Paz no futuro e glória no passado

Mas se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte,

Terra adorada!
Entre outras mil
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada

Dos filhos deste solo és mãe gentil
Pátria amada
Brasil!

03 dezembro 2005

O QUE É O QUE É? - Gonzaguinha

O QUE É O QUE É?
(Gonzaguinha)



Eu fico
Com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah meu Deus eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah meu Deus eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita

E a vida
E a vida o que é diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão, ê ô
Mas e a vida
Ela é maravida ou é sofrimento
Ela é alegria ou lamento
O que é, o que é, meu irmão
Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo
É uma gota é um tempo que nem dá um segundo
Há quem fale que é um divino mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor
Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida e viver
Ela diz que melhor é morrer pois amada não é
E o verbo é sofrer
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der ou puder ou quiser
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte
E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico
Com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah meu Deus eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah meu Deus eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah meu Deus eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah meu Deus eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita

02 dezembro 2005

INSTANTES - Autor anônimo

INSTANTES

De Autor anônimo, atribuído a
Jorge Luis Borges

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido; e de saída
Levaria mais a sério pouquíssimas coisas.

Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria em rios.
Iria a mais lugares onde nunca estive antes,
Comeria mais doces e menos verduras,
teria mais problemas reais e menos imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu
sensata e produtivamente cada minuto da sua vida
E, é claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feito a vida:
só de momentos - não percas o aqui e agora.

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma
sem um termômetro, uma bolsa de água quente,
um guarda-chuva e um pára-quedas;
se eu pudesse voltar a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
Começaria por andar descalço desde o começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.

Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres
e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anose sei que estou morrendo.

01 dezembro 2005

JOSÉ - Carlos Drummond de Andrade

JOSÉ
Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, proptesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?