ODE AO BATRÁQUIO
Vicente Siqueira
Orgulhem-se assim, cada qual com o que pode.
Podendo-se cantar, mesmo com timidez,
mesmo com rouquidão.
Em tons débeis, inapreciáveis, mesmo inaudíveis.
Sempre à espreita.
Também os batráquios cantam (em seus longos coaxares).
E o poeta, o que diria?... Coaxar é preciso?
E esses mundos todos? Entre insetos e batráquios?
O que escolher? Ser sapo ou libélula? Rã ou borboleta?
Nada há de ocioso na vida do batráquio:
Pula daqui, pula dali, coaxa além. Observa adiante.
E acolá? Parado. Quem vem lá? É o inseto.
Adrenalina a mil. À intrepidez juntando-se a pertinácia.
Lealdade e hombridade quase bárbaras.
A toda prova.
Uma pujança de vitalidade irreprimível.
Algo de fantasmal.
Personalidade própria. Sem dubiedade.
A sapaiada em polvorosa.
Orgulhoso de si o sapo não perde por um instante a presa.
Submerso em conflitos, coragem, astúcia e crueldade;
Mas tudo pelo ato de viver e sobreviver.
Percebe em si mesmo a calma, como se fosse rua deserta.
Sente a proximidade mais imediata com a sua própria história.
Mas o que pensar? Sapo não é filósofo.
Nada tem de Platão.
Mas sente um amor platônico pelo inseto.
Qualquer inseto. Desde que disponível.
Desde que frente a frente.
À distância da língua.
Não percebe em si um sentimento de insuficiência,
Mas sim, tamanha moral.
Rosto hermético e imponente.
Expressão ameaçadora e inevitável.
Olhar inquiridor. Lá vai o sapo.
Parece expressão verbal: "lavai" o sapo.
Atrás do seu próprio destino batraquial.
Vencendo pela obstinação.
Movimento calculado (cômicas puladas).
Impregnado de um estilo próprio, só a ele acessível.
Vida claramente clandestina nesses crepúsculos vermelhos,
Com alto nível de percepção nessas noites de verão.
Sente horror de cenas sangrentas.
Mas em amarga reflexão: "que fazer?"
Tanto de desafio quanto de desembaraço
Pensa em sua eterna fome.
Olhinhos brilhantes.
Músculos catapultando a língua, que não oscila.
Certeira, inevitável.
Lá vem o inseto.
Lá vai o sapo.

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