31 maio 2006

NÃO DEU PRA SEGURAR
Martinho da Vila


O amor não tem cor
O amor não tem idade
O amor não vê cara
Nem religião
Não faz diferença do rico e do pobre
O amor só precisa de um coração
O amor não tem tom
Nem nacionalidade
Dispensa palavras basta um olhar
O amor não tem hora nem fórmula certa
Não manda recado chega pra ficar
Amor chegou na minha vida
Quando eu te encontrei
Olhei no teu olhar e me apaixonei
Foi tanta emoção não deu pra segurar
Amor, contigo do meu lado
É cada vez maior
Quero me batizar no sal do teu suor
E Ter a vida inteira pra poder te amar

30 maio 2006

MARIONETE
De autor anônimo - Atribuído a García Márquez

Se por um instante Deus se esquecesse
de que sou uma marionete de trapo,
e me presenteasse um pedaço de vida,
possivelmente não diria tudo o que penso,
mas definitivamente pensaria tudo o que digo.

Daria valor às coisas, não pelo que valem,
senão pelo que significam.
Dormiria pouco e sonharia mais,
entendo que por cada minuto
que fechamos os olhos,
perdemos sessenta segundos de luz.

Andaria quando os demais se detêm,
despertaria quando os demais dormem,
escutaria enquanto os demais falam, e como
desfrutaria de um bom sorvete de chocolate...

Se Deus me obsequiasse um pedaço de vida,
me vestiria com simplicidade,
me atiraria de bruços ao sol,
deixando descoberto, não somente meu corpo,
mas também minha alma.

Deus meu, se eu tivesse um coração....
Escreveria meu ódio sobre o gelo,
e esperaria que saísse o sol.
Pintaria com um sonho de Van Gogh
sobre as estrelas um poema de Benedetti,
e uma canção de Serrat seria a serenata
que ofereceria à lua.

Regaria com minhas lágrimas as rosas,
para sentir a dor de seus espinhos,
e o encarnado beijo de suas pétalas...

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida...
Não deixaria passar um só dia
sem dizer à gente que quero, que a quebro.
Convenceria a cada mulher e homem
de que são meus favoritos e viveria enamorado do amor.


Aos homens provaria quão equivocados estão ao pensar que deixam de enamorar-se quando envelhecem, sem saber que envelhecem
quando deixam de se enamorar.


A uma criança daria asas, mas deixaria
que ela aprendesse a voar sozinha.
Aos velhos, a meus velhos, ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.

Tantas coisas aprendi de vocês, homens....
Aprendi que o mundo todo quer viver no alto
da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa.


Aprendi que quando um recém-nascido
aperta com seu pequeno polegar pela primeira
vez o dedo de seu pai,
o tem amarrado para sempre.


Aprendi que um homem unicamente tem direito de olhar outro homem de cima para baixo,
quando estiver ajudando-o a se levantar.

São tantas coisas as que pude aprender de vocês,
mas finalmente de muito não haverão de servir
porque quando me guardem dentro desta maleta,
infelizmente estaria morrendo...

29 maio 2006

NO TEMPO DOS QUINTAIS
Sivuca & Paulinho Tapajós

Era uma vez um tempo de pardais, de verde nos quintais
Faz muito tempo atrás, quando ainda havia fadas
No bonde havia um anjo pra guiar, outro pra dar lugar
Pra quem chegar sentar, de duvidar, de admirar.

Havia frutos num pomar qualquer, de se tirar do pé
No tempo em que os casais, podiam mais se namorar
Nos lampiões de gás, sem os ladrões atrás
Tempo em que o medo se chamou jamais.

Veio um marquês de uma terra já perdida
E era uma vez se fez dono da vida
Mandou buscar cem dúzias de avenidas
Pra expulsar de vez as margaridas
Por não ter filhos, talvez por nem gostar
Ou talvez por mania de mandar.

Só sei que enquanto houver os corações
Nem mesmo mil ladrões podem roubar canções
E deixa estar que há de voltar
O tempo dos pardais, do verde nos quintais
Tempo em que o medo se chamou jamais.

28 maio 2006

O AMOR
(Caetano Veloso e Ney Costa Santos
sobre poema de Vladimir Maiakovsky)

Talvez
Quem sabe um dia
Por uma alameda do zoológico ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa

Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias


Agora vamos alcançar
Tudo o que não pudemos amar na vida
Com o estelar das noites inumeráveis


Ressuscita-me
Ainda que mais não seja
Por que sou poeta
E ansiava o futuro

Ressuscita-me
Lutando contra as misérias
Do cotidiano
Ressuscita-me por isso

Ressuscita-me
Quero acabar de viver
O que me cabe, minha vida
Para que não mais existam
Amores servis.

Ressuscita-me
Para que ninguém mais tenha
Que sacrificar-se
Por uma casa, um buraco.

Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme

E o pai
Seja pelo menos o universo
E a mãe
Seja no mínimo a terra

27 maio 2006

O AMOR ACABA
Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio;
e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão;
às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar;
na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba;
no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes;
e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados;
e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido;
mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

26 maio 2006

O CADERNO
Toquinho - Mutinho

Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco até o be-a-bá.
Em todos os desenhos coloridos vou estar:
A casa, a montanha, duas nuvens no céu
E um sol a sorrir no papel.

Sou eu que vou ser seu colega,
Seus problemas ajudar a resolver.
Te acompanhar nas provas bimestrais, você vai ver.
Serei de você confidente fiel,
Se seu pranto molhar meu papel.

Sou eu que vou ser seu amigo,
Vou lhe dar abrigo, se você quiser.
Quando surgirem seus primeiros raios de mulher
A vida se abrirá num feroz carrossel
E você vai rasgar meu papel.

O que está escrito em mim
Comigo ficará guardado, se lhe dá prazer.
A vida segue sempre em frente, o que se há de fazer.
Só peço a você um favor, se puder: Não me esqueça num canto qualquer

25 maio 2006

O DOM

Atribuído à Clarice Lispector

Não te amo mais
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderei dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase:
Eu te amo!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade:
É tarde demais...

(Leia de baixo para cima)

24 maio 2006

O MILAGRE DA VIDA
(Uma história real)


Como qualquer mãe, quando Karen soube que um bebê estava a caminho, fez todo o possível para ajudar o seu outro filho, Michael, com três anos de idade, a se preparar para a chegada. Os exames mostraram que era uma menina, e todos os dias Michael cantava perto da barriga de sua mãe. Ele já amava a sua irmãzinha antes mesmo dela nascer. A gravidez se desenvolveu normalmente. No tempo certo, vieram as contrações. Primeiro, a cada cinco minutos; depois a cada três; então, a cada minuto uma contração. Entretanto, surgiram algumas complicações e o trabalho de parto de Karen demorou horas. Todos discutiam a necessidade provável de uma cesariana. Ate que, enfim, depois de muito tempo, a irmãzinha de Michael nasceu. Só que ela estava muito mal. Com a sirene no último volume, a ambulância levou a recém-nascida para a UTI neonatal do Hospital Saint Mary. Os dias passaram. A menininha piorava. O médico disse aos pais: "Preparem-se para o pior. Há poucas esperanças". Karen e seu marido começaram, então, os preparativos para o funeral. Alguns dias atrás estavam arrumando o quarto para esperar pelo novo bebê. Hoje, os planos eram outros.

Enquanto isso, Michael todos os dias, pedia aos pais que o levassem para conhecer a sua irmãzinha. "Eu quero cantar pra ela", ele dizia. A segunda semana de UTI entrou e esperava-se que o bebê não sobrevivesse até o final dela. Michael continuava insistindo com seus pais para que o deixassem cantar para sua irmã, mas crianças não eram permitidas na UTI. Entretanto, Karen decidiu. Ela levaria Michael ao hospital de qualquer jeito. Ele ainda não tinha visto a irmã e, se não fosse hoje, talvez não a visse viva. Ela vestiu Michael com uma roupa um pouco maior, para disfarçar a idade, e rumou para o hospital. A enfermeira não permitiu que ele entrasse e exigiu que ela o retirasse dali. Mas Karen insistiu: "Ele não irá embora até que veja a sua irmãzinha!" Ela levou Michael até a incubadora. Ele olhou para aquela trouxinha de gente que perdia a batalha pela vida. Depois de alguns segundos olhando, ele começou a cantar, com sua voz pequenininha: "Você é o meu sol, o meu único sol. Você me deixa feliz mesmo quando o céu está escuro..." Nesse momento, o bebê pareceu reagir. A pulsação começou a baixar e se estabilizou. Karen encorajou Michael a continuar cantando. "Você não sabe, querida, quanto eu te amo. Por favor, não leve o meu sol embora..." Enquanto Michael cantava, a respiração difícil do bebê foi se tornando suave. "Continue, querido!", pediu Karen, emocionada. "Outra noite, querida, eu sonhei que você estava em meus braços..." O bebê começou a relaxar. "Cante mais um pouco, Michael." A enfermeira começou a chorar. "Você é o meu sol, o meu único sol. Você me deixa feliz mesmo quando o céu esta escuro...Por favor, não leve o meu sol embora..."

No dia seguinte, a irmã de Michael já tinha se recuperado e em poucos dias foi para casa. O Woman's Day Magazine chamou essa historia de "O milagre da canção de um irmão". Os médicos chamaram simplesmente de milagre. Karen chamou de milagre do amor de Deus. NUNCA ABANDONE AQUELE QUE VOCE AMA. O AMOR É INCRIVELMNTE PODEROSO. Viver é legal! E tenha um ótimo dia! Que a paz esteja com você hoje. Que você tenha a certeza de que está exatamente onde deveria estar. Que você use as graças que recebeu e transmita o amor que lhe foi dado. Que você se sinta feliz por ser. Que a Sua presença suporte o seu corpo e permita a sua alma cantar, dançar e caminhar ao sol, pois ele brilha para todos nós.

23 maio 2006

CANÇÃO PARA A AMIGA DORMINDO
Vinícius de Moraes

Dorme, amiga, dorme
Teu sono de rosa
Uma paz imensa
Desceu nesta hora.
Cerra bem as pétalas
Do teu corpo imóvel
E pede ao silêncio
Que não vá embora.

Dorme, amiga, o sono
Teu de menininha
Minha vida é a tua
Tua morte é a minha.
Dorme e me procura
Na ausente paisagem...
Nela a minha imagem
Restará mais pura.

Dorme, minha amada
Teu sono de estrela
Nossa morte, nada
Poderá detê-la.

Mas dorme, que assim
Dormirás um dia
De um sono sem fim...
Na minha poesia.

22 maio 2006

ODE AO BATRÁQUIO
Vicente Siqueira

Orgulhem-se assim, cada qual com o que pode.
Podendo-se cantar, mesmo com timidez,
mesmo com rouquidão.
Em tons débeis, inapreciáveis, mesmo inaudíveis.
Sempre à espreita.
Também os batráquios cantam (em seus longos coaxares).
E o poeta, o que diria?... Coaxar é preciso?
E esses mundos todos? Entre insetos e batráquios?
O que escolher? Ser sapo ou libélula? Rã ou borboleta?
Nada há de ocioso na vida do batráquio:
Pula daqui, pula dali, coaxa além. Observa adiante.
E acolá? Parado. Quem vem lá? É o inseto.
Adrenalina a mil. À intrepidez juntando-se a pertinácia.
Lealdade e hombridade quase bárbaras.
A toda prova.
Uma pujança de vitalidade irreprimível.
Algo de fantasmal.
Personalidade própria. Sem dubiedade.
A sapaiada em polvorosa.
Orgulhoso de si o sapo não perde por um instante a presa.
Submerso em conflitos, coragem, astúcia e crueldade;
Mas tudo pelo ato de viver e sobreviver.
Percebe em si mesmo a calma, como se fosse rua deserta.
Sente a proximidade mais imediata com a sua própria história.
Mas o que pensar? Sapo não é filósofo.
Nada tem de Platão.
Mas sente um amor platônico pelo inseto.
Qualquer inseto. Desde que disponível.
Desde que frente a frente.
À distância da língua.

Não percebe em si um sentimento de insuficiência,
Mas sim, tamanha moral.
Rosto hermético e imponente.
Expressão ameaçadora e inevitável.
Olhar inquiridor. Lá vai o sapo.
Parece expressão verbal: "lavai" o sapo.
Atrás do seu próprio destino batraquial.
Vencendo pela obstinação.
Movimento calculado (cômicas puladas).
Impregnado de um estilo próprio, só a ele acessível.
Vida claramente clandestina nesses crepúsculos vermelhos,
Com alto nível de percepção nessas noites de verão.
Sente horror de cenas sangrentas.
Mas em amarga reflexão: "que fazer?"
Tanto de desafio quanto de desembaraço
Pensa em sua eterna fome.
Olhinhos brilhantes.
Músculos catapultando a língua, que não oscila.
Certeira, inevitável.
Lá vem o inseto.
Lá vai o sapo.

21 maio 2006

ROSA-DOS-VENTOS
Chico Buarque

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima
Pra socorrer

E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr

Mas, sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Moresse de pena
E chovesse o perdão

E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
E inundou de água-doce
A amargura do mar

Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar

20 maio 2006

IMPROCEDENTE

Márcia Maia

Quase só nesta sexta de manhã
Busco abrigo entre as rimas do soneto
Apesar de saber-me aqui perdida
Qual romã a pender de abacateiro

Meio-morta e cansada do afã
De uma noite em plantão inda cometo
Um pecado ao tentar driblar a vida
Procurando uma agulha no palheiro

Que seria uma rima bela e rara
Pra rimar desencanto e solidão
Com amor essa coisa evanescente

Que atormenta e vicia feito tara
Que se tem mas se nega sempre em vão
: onde jaz essa rima improcedente?

Sexta-feira, Maio 19, 2006

AUTOPSICOGRAFIA
Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

19 maio 2006

SER MÃE
Coelho Neto

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

18 maio 2006

SERAFIM E SEUS FILHOS

Ruy Maurity

São três machos e uma fêmea, por sinal Maria
Que com todas se parecia
Todos de olhar esperto, para ver bem perto
Quem de muito longe é que vinha
Filhos de dois juramentos, todos dois sangrentos
Em noite clarinha, eia-ô
O João Quebra-Toco, Mané-Quindim, Lourenço e Maria .


Noite alta de silêncio e Lua, Serafim,
O bom pastor de casa saía
Dos quatro meninos, dois levavam rifle
E os outros dois levavam fumo e farinha
Bandoleros de los campos verdes, Don Quijotes
De nuestro desierto, eia-ô
Mané, João, Lourenço e Maria . . .

Mas o tal Lourenço, dos quatro o mais novo
Era quem dos quatro tudo sabia
Resolveu deixar o bando e partir pra longe
Onde ninguém lhe conhecia
Serafim jurou vingança,
Filho meu não dança conforme a dança, eia-ô
E mataram o Lourenço em noite alta de lua mansa . . .

Todo mundo dessas redondezas
Conta que o tal Lourenço não deu sossego
Fez cair na vida sua irmã Maria
E os outros dois matou só de medo
Serafim depois que viu o filho lobisomem
Perdeu o juízo, eia-ô
E morreu sete vezes
Até abrir caminho pro paraíso . . .

17 maio 2006

SIMPLESMENTE
Vicente Siqueira

Uma calçada qualquer. Um dia qualquer. Quando se fechava o abril. Um frio abril, como um junho qualquer, desses junhos frios, se frio ele for. Passos rápidos e automatizados. Um caminhar sem nexo, em qualquer direção. Por aí. Assim meio distraído.
Desapercebendo as vitrinas, esquecendo as pessoas, esses vagos transeuntes descuidados. Não ouvindo os ruídos. Simplesmente por aí. Simplesmente.
Um dia vago, um dia frio. Sem sol, sem chuva, sem promessas, sem nada. Dia de irônicos silêncios, de melancólica atmosfera. Uma cabeça insatisfeita comandando o arredio coração, sem vida, sem emoção, instalado num peito vazio, e que traz em si as verdades indiscretas, de obscuras origens.
Um toque suave no ombro, uma voz murmurada, repentina, sôfrega, espremida. Um chamamento. Um encontro. Reencontro. Ali em meio aos passantes, em meio ao dia, quase ao meio dia. Velozes espetadas do tempo, da saudade, que não se esconde, que não se comenta.
Um rosto, uma feição, um jeito, um sorriso. Um beijo (ou dois, ou três) no rosto, com jeito meio-sem-jeito. Ali, numa calçada, um dia. Palavras soltas, descuidadas, talvez de desculpas, talvez de lembranças, talvez de cobranças, mas sem compromissos, sem razão, sem dever. Alguém ali parado, parados, desconcertados.
Uma lembrança, uma promessa. A alegria contida. Como num filme em preto e branco. Bem ali, a poucos passos do cinema; como se o acaso organizasse os encontros pelo mundo: pelos bares, pelos parques, pelas montanhas, pelas praias, pelas calçadas... qualquer dia. Os descuidos e as esperanças foram revistos. Algumas remotas insatisfações foram arremessadas ao ar, como folhas ao vento travesso.
Um turbilhão interior. Uma vontade de falar, desafogar, desabafar: falar de gente, de coisas, de chuvas, de música; desafogar as mágoas, as ilusões, o peito vazio, as visões; desabafar as falsas verdades, os medos monótonos, as idéias, os planos.
Um pequeno grande ser voltou a tomar as suas verdadeiras proporções. Mãos dadas, como nos tempos que não houve. Um silêncio incontaminado, numa miragem inacessível. Frases rápidas, ao acaso. Tentando esconder o que os olhos não negam. Frases curtas, mal proferidas. Olhares angustiados. O esforço para se guardar. Rostos herméticos em suas dúvidas assumidas.
Um beijo (no rosto), de despedida. Uma presença se afastando. Tornando-se ausência. De encontro com o passado. A saudade a espreitar pelas frestas. Duas vidas se distanciando pela vida. Que vida?
Uma desesperança, um desencontro, uma angústia. O desencadear de novas velhas emoções.
Uma vontade de gritar, de impedir, de resistir, de quebrar o ferido orgulho, de não ser o avesso do avesso. Mas em vão.
Uma cabeça baixa, sem esperança, sem nada. Por uma calçada. Um dia frio. Simplesmente um dia.
Simplesmente.

16 maio 2006

SONETO
Shakespeare

Quem crerá em meu verso na era futura
Se ele é cheio de tua mais alta verdade
Mas ainda assim é amostra impura
Que de tua vida mostra só a metade.

Se eu pudesse pintar teu olhar brilhante
E em números tuas graças enumerasse
A era futura diria: o poeta mente
Tais tons nunca tingiriam humana face

Então, meus papéis amarelecidos
Seriam tratados como de um caduco
Tributos vão de furores perdidos

Exageros em versos de um maluco
Mas se ainda algum dos teus vivesse então
Viveria duas vezes, nele e em canção

15 maio 2006

SONETO DA FIDELIDADE

Vinícius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama...

Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

14 maio 2006

APRENDE…
William Shakespeare...


Depois de algum tempo, você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.
E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão. Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam... E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la, por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobre que se levam anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pelo resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.
Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa, por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos. Aprende que as circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser. Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto. Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve. Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.
Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências. Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.
Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou. Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.
Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama, contudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo. Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás.
Portanto... plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!"

13 maio 2006

SONETO
(Busque Amor novas artes, novo engenho)
Camões

Busque Amor novas artes, novo engenho,
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê;

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei por quê

12 maio 2006

SONETO
(Amor é fogo que arde sem se ver)
Camões


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem-querer;
É solitário andar por entre a gente;
É um não contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder

É um estar-se preso por vontade;
É servir, a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode o seu favor
Nos mortais corações conformidade,
Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?

11 maio 2006

SONHOS
(Peninha)


Tudo era apenas uma brincadeira
E foi crescendo, crescendo
Me absorvendo
E de repente
Eu me vi assim completamente seu
Vi a minha força amarrada no seu passo
Vi que sem você não tem caminho
Eu não me acho
Vi um grande amor gritar dentro de mim
Como eu sonhei um dia



Quando o meu mundo era mais mundo
E todo mundo admitia
Uma mudança muito estranha
Mais pureza, mais carinho, mais calma, mais alegria
No meu jeito de me dar
Quando a canção se fez mais clara e mais sentida
Quando a poesia realmente fez folia em minha vida
Você veio me falar dessa paixão
Inesperada por outra pessoa


Mas não tem revolta não
Só quero que você encontre
Ter saudade até que é bom
É melhor que caminhar vazio
A esperança é um dom
Que eu tenho em mim
Eu tenho sim


Não tem desespero não
Você me ensinou milhões de coisas
Tenho um sonho em minhas mãos
Amanhã será um novo dia
Certamente eu vou ser mais feliz

10 maio 2006

Poema

Paulo Leminski

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra

09 maio 2006

TENTE OUTRA VEZ
Raul Seixas

Veja
Não diga que a canção está perdida
Tenha fé em Deus, tenha fé na vida
Tente outra vez

Beba
Pois a água viva ainda tá na fonte
Você tem dois pés para cruzar a ponte
Nada acabou, não não não

Tente
Levante sua mão sedenta e recomece a andar
Não pense que a cabeça agüenta se você parar
Há uma voz que canta, há uma voz que dança
Há uma voz que gira
Bailando no ar

Queira
Basta ser sincero e desejar profundo
Você será capaz de sacudir o mundo
Vai, tente outra vez

Tente
E não diga que a vitória está perdida
Se é de batalhas que se vive a vida
Tente outra vez

08 maio 2006

TODOS ESTÃO SURDOS
Roberto Carlos e Erasmo Carlos


Desde o começo do mundo
Que o homem sonha com a paz
Ela está dentro dele mesmo
Ele tem a paz e não sabe
É só fechar os olhos
e olhar pra dentro de si mesmo

Tanta gente se esqueceu
Que a verdade não mudou
Quando a paz foi ensinada
Pouca gente escutou

Mas meu amigo, volte logo
Venha ensinar meu povo
Que o amor é importante
Vem dizer tudo de novo



Outro dia um cabeludo falou:
Não importam os motivos da guerra
A paz é ainda mais importante que eles.
Essa frase vive nos cabelos encaracolados
das cucas maravilhosas
Mas se perdeu no labirinto
dos pensamentos poluídos
pela falta de amor
Muita gente não ouviu
porque não quis ouvir
Eles estão surdos


Tanta gente se esqueceu
Que o amor só traz o bem
Que a covardia é surda
E só ouve o que convém

Mas meu amigo, volte logo
Venha olhar pelo meu povo
O amor é importante
Vem dizer tudo de novo

Um dia o ar se encheu de amor
E em todo o seu esplendor as vozes cantaram
E o canto ecoou pelos campos,
Subiu as montanhas e chegou ao universo
E uma estrela brilhou
mostrando o caminho:
Glória a Deus nas alturas
E paz na Terra aos homens de boa vontade
Tanta gente se afastou
do caminho que é de luz
Pouca gente se lembrou
da mensagem que há na cruz
Mas meu amigo, volte logo
Vem olhar pelo meu povo
O amor é importante
Vem dizer tudo de novo

07 maio 2006

TRISTEZA DO INFINITO
Cruz e Souza

Anda em mim, soturnamente,
uma tristeza ociosa,
sem objetivo, latente,
vaga, indecisa, medrosa.

Como ave torva e sem rumo,
ondula, vagueia, oscila
e sobe em nuvens de fumo
e na minh'alma se asila.

Uma tristeza que eu, mudo,
fico nela meditando
e meditando, por tudo
e em toda a parte sonhando.

Tristeza de não sei donde,
de não sei quando nem como...
flor mortal, que dentro esconde
sementes de um mago pomo.


Dessas tristezas incertas,
esparsas, indefinidas...
como almas vagas, desertas
no rumo eterno das vidas.


Tristeza sem causa forte,
diversa de outras tristezas,
nem da vida nem da morte
gerada nas correntezas...


Tristeza de outros espaços,
de outros céus, de outras esferas,
de outros límpidos abraços,
de outras castas primaveras.

Dessas tristezas que vagam
com volúpias tão sombrias
que as nossas almas alagam
de estranhas melancolias.

Dessas tristezas sem fundo,
sem origens prolongadas,
sem saudades deste mundo,
sem noites, sem alvoradas.

Que principiam no sonho
e acabam na Realidade,
através do mar tristonho
desta absurda Imensidade.

Certa tristeza indizível,
abstrata, como se fosse
a grande alma do Sensível
magoada, mística, doce.

Ah! tristeza imponderável,
abismo, mistério, aflito,
torturante, formidável...
ah! tristeza do Infinito!

06 maio 2006

FELICIDADE
Vicente de Carvalho

Só a leve esperança em toda a vida
disfarça a pena de viver, mais nada;
nem é mais a existência resumida
que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
sonho que a traz ansiosa e embevecida,
é uma hora feliz, sempre adiada e
que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos
árvore milagrosa que sonhamos
toda arriada de dourados pomos

existe sim; mas nós não a encontramos,
porque está sempre apenas onde a pomos
e nunca a pomos onde nós estamos.

05 maio 2006

UMA CRÔNICA
Marina Colasant

Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista,
logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora,
logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas,
logo se acostuma a acender mais cedo a luz.
E porque à medida que se acostuma esquece o sol,
esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acodar de manhã,
sobressaltado porque estána hora.
A tomar café correndo poque está atrasado.
A ler jornal no ônibus
porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduíches porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e a dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos
e que haja números para os mortos.
E aceitando os números,
aceita não acreditar nas negociações de paz.

E aceitando as negociações de paz,
aceita ler todo dia de guerra,
dos números,
da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro
e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas
sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar
por tudo o que deseja e o que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer fila para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro,
para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes,
a abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e assistir a comerciais.
A ir ao cinema, a engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado,
lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável.
À contaminação da água do mar.
À luta.
À lenta morte dos rios.

E se acostuma a não ouvir passarinhos,
a não colher frutas do pé,
a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais,
para não sofrer.
Em doses pequenas,
tentando não perceber.
Vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali,
uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio,
a gente se senta na primeira fila
e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada,
a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro,
a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer,
a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito
porque tem sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza,
para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos,
para esquivar-se da faca e da baioneta,
para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta,
e que, de tanto acostumar,
se perde de si mesma.

04 maio 2006

VALSINHA
(Chico Buarque e Vinícius de Moraes)

Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto
Quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto
Pra seu grande espanto convidou-a pra dançar

E então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado
Cheirando a guardado de tanto esperar
Depois o dois deram-se os braços
Como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça
E começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhanca toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz

03 maio 2006

VIDA
Fernando Pessoa

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente temÉ a que tem que pensar

02 maio 2006

VERBO NO INFINITO
Vinicius de Moraes

Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, e ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito.

01 maio 2006

TRECHO

Vinícius de Moraes

Quem foi, perguntou o Celo
Que me desobedeceu?
Quem foi que entrou no meu reino
E em meu ouro remexeu?
Quem foi que pulou meu muro
E minhas rosas colheu?
Quem foi, perguntou o Celo
E a flauta falou: Fui eu.

Mas quem foi, disse a Flauta
Que no meu quarto surgiu?
Quem foi que me deu um beijo
E em minha cama dormiu?
Quem foi que me fez perdida
E me desiludiu?
Quem foi, perguntou a Flauta
E o velho Celo sorriu.